Seminário Internacional
Saber Global Centro e periferia na Sociedade do Conhecimento
Painel II Quarta Feira 24/09/03 14 h.
Inteligência colectiva e desenvolvimento humano
Papel essencial da inteligência colectiva no capitalismo cognitivo
Desafios e oportunidades para as políticas publicas do XXI° século
Yann Moulier Boutang
Dr de ciências económicas
Agradecimentos preliminares
Queria no inicio dessa palestra agradecer aos meus colegas e amigos
Professores e doutores Marcos Dantas, Giuseppe Cocco, sua Excelência Tarso
Genro pelo convite. É para mim, uma grande honra de contribuir a um debate
tão fundamental e ter como moderador sua Excelência, Professor Roberto
Bartholo da Capes, ministério de Estado da Educação.
Naturalmente, vou pedir a vossa indulgência pelo meu fraco português , mas
eu acho importante, para ter um debate mais livre, que o pensamento de cada
um não seja enfreado na discussão pelo uso do Inglês internacional, que traz
talvez com ele mais do que um simples meio de comunicação neutro. Eu acho
também que teria sido a mesma coisa com o Francês há um século atrás.
A questão da inteligência colectiva é hoje fundamental
Antes de ver que sentido preciso podemos atribuir a esta palavra, um
preambulo : a inteligência colectiva sempre existiu na historia da
humanidade e na linguagem: comunicação entre os homens, capacidade de
organizar acções racionais, inovações para responder as mudanças não
previstas, achamos tudo isso desde a época da caça. Sabemos também que
achamos inovação, invenção e criação colectivas bem antes da
institucionalização individual do autor, do inventor, do criador, do
artista, do escritor. A aprendizagem na arte, nas ciências, em qualquer tipo
de actividade é interactiva. É por isso que o paradigma comunicacional da
fonte emissora e do receptor passivo, sem feed-back, pode somente
enganar-nos.
Todavia, após dois séculos de desdobramento do individualismo, o mais
criativo que houve na historia da humanidade, a questão do indivíduo
múltiplo no seu ser e colectivo, de repente, sem mediações, aparece como
nova fronteira da filosofia ( Ver o filosofo francés, Gilbert Simondon por
exemplo). Isso está acontecendo no momento exacto em que as novas
tecnologias abrem uma crise do paradigma educativo estatal, cuja destituição
pelo mercado emergente da comunicação multimedia pode explicar boa parte da
violência que atinge os países desenvolvidos europeus e não somente os
países como os Estados Unidos, para não falar dos países corroídos por um
nível de desigualdade destrutivo. Essa crise do modelo educativo individual
toca tanto as finalidades quanto as modalidades da instituição escolar e
universitária.
No Brasil que pertence a uma tradição cultural da velha Europa, com uma
hibridação maciça de sua população, e com uma desigualdade imputável tanto à
escravidão e à política da burguesia, quanto à globalização neoliberal (que
é somente a azeitona da empada), a resposta a uma pergunta desse tamanho não
pode existir sem uma inteligência colectiva, entendida como uma mobilização
dos recursos escondidos ou desprezados na cultura oficial. Não devemos
esquecer que o próprio A.O Hirschman iniciou sua reflexão sobre o
desenvolvimento com este conceito de mobilização de recursos invisíveis.
Não tenho duvidas sobre o facto de que o êxito da experiência actual do
Brasil esteja mais ligada a este desafio interno do que ao problema,
seguramente importante, do chamado ³constrangimento externo² das economias,
sabendo, como dizia Keynes que o tamanho do debito é a variável
determinante. Quanto maior o debito, maior o problema do credor, conseguindo
o devedor mais espaço para negociar.
O actual desafio da educação na globalização na era da revolução numérica
Em Paris, na aula da Sorbonne, o Ministro francês da Educação, O Professor
Luc Ferry , que teve de enfrentar, antes do verão, uma forte contestação e
iniciou um debate nacional sobre o futuro da educação, declarando que o
Governo teria que afirmar claramente que ³a educação não pode ser um bem
mercantil como os outros². Uma tal declaração, provinda de um governo que
não é de esquerda, só podia alegrar os altermundialistas que já apoiaram a
recusa da inclusão dos bens culturais nas negociações da OMC. É a famosa
³excepção cultural¹. Mas, no campo da educação que contem indubitáveis
aspectos de repetição e de serializaçâo, agora propiciados pela mesma
digitalização dos conteúdos, é mais difícil fazer prevalecer o argumento da
³excepção². Por outro lado, no campo da própria cultura, a vitória francesa
e europeia foi enganosa pois Hollywood e as maiores empresas de comunicação
tem já o controle sobre a distribuição dos filmes, dos discos. O monopólio
que eles apresentam foi mais ameaçado pelos hackers do Napster e Kazaa do
que por uma ³lei para o galo francês ver².
Nessa altura, o problema é saber como fazer para que a declaração de não
mercantilizaçâo da educação se torne mais do que um protesto humanista de
alguns Estados, inclusive a União Europeia, sem efeito nenhum sobre os
assuntos gerais da realidade económica.
A educação inicial, a formação ao longo da vida, a cultura no sentido
anglo-saxónico da palavra, quer dizer, os modos de existência, os
comportamentos, voltam a ser para os sectores mas dinâmicos do capitalismo
os novos continentes a conquistar. Diante da mercantilizaçâo e da
globalização, uma estratégia de abrigo graças as velhas políticas publicas
de excepção me parece insuficiente como a ³ligne Maginot² na ultima guerra
mundial, ou como as nacionalizações franceses na época do Presidente
Mitterand.
Aqui chegamos de novo ao conceito de inteligência colectiva.
Uma definição provisória da inteligência colectiva hoje
Em primeiro lugar, eu vou tentar uma definição provisória do conceito de
inteligência colectiva. Depois voltaremos a enriquecer o seu conteúdo.
Falamos de inteligência cada sempre ao inventar uma resposta nova (não
programada previamente) a um novo problema ou novas perguntas que ate
aquele momento não haviam sido explicitadas. Falamos de inteligência
colectiva quando essa resposta não pode ser dada a nível individual ou
inventada pelo indivíduo separado de outros indivíduos ou de instituições.
Falamos de inteligência colectiva hoje quando a estes características se
deve ajuntar uma cooperação entre cérebros para alem da rede numérica e de
computadores pessoais.
Não é por acaso que o primeiro autor no período actual que usou da expressão
³inteligência colectiva², foi Pierre Lévy no seu livro seminal para toda a
primeira geração numérica que tinha praticado a cooperação horizontal no
universo burocrático do estado ou no ambiente mercantil da empresa. Essa
reivindicação cultural e ética indicou uma mudança da racionalidade no
sentido de Max Weber.
A escassa evocação da inteligência colectiva no debate histórico sobre
dependência e desenvolvimento
A pesar de ser central na articulação do conceito de desenvolvimento
económico, a inteligência colectiva não recebeu atenção suficiente.
Progressos importantes foram realizados no desdobramento da noção de
inteligência colectiva com as contribuições tanto neoclássicas da teoria do
capital humano ( Schultz e Becker 1962)) , ou dos modelos de crescimento
endógeno (Lucas 1988, Romer 1986 et 1990 ), quanto na corrente critica (A.
Emmanuel, 1970 ), e enfim na promoção do conceito de basic needs pelo
Banco Mundial e a elaboração pelo Programa das Naçôes Unidas pelo
Desenvolvimento (PNUD) de indicadores de desenvolvimento humano ( IDH) com
base no trabalho do Amartya Sen. A critica dos indexes de crescimento
material com raízes ecológicas foi parte também de uma revisão da economia.
Não foi possível, ao fim dos anos 1970, limitar o desenvolvimento ao consumo
de energia eléctrica por habitante.
Entretanto, o conteúdo preciso da expressão ³desenvolvimento humano² foi
geralmente associado aos indicadores de educação (inclusivamente na
qualidade dessa), de nível de formação da população activa e de saúde
aproximada pelas estatísticas de morbidez, de mortalidade e de esperança
media de vida. Um indicador global de ³bem estar² pode incluir agora até a
poluição, e o aquecimento ou vários indexes ambientais.
Todavia, o problema dessa abordagem è duplo:
- Os conteúdos do desenvolvimento humano são assim considerados somente como
consumidores de recursos e não como produtores de valor económico. Quero
dizer que supõe-se que o crescimento desses sectores torna-se estreitamente
ligado ao desenvolvimento da produção material, e finalmente da produção
mercantil (típica deste preconceito, é o libro de Bacon & Eltis no Reino
Unido em 1972). Apesar de que o sistema da contabilidade nacional tinha
integrado desde 1976 (na França mais também nos outros países) os sectores
não mercantis da economia, esses sectores diferentemente do sector
financeiro, pertencem a esfera da redistribuição e não à esfera da produção
directa. Houve uma conseqüência lógica deste preconceito : o escassez do
trabalho material e industrial levou a uma industrialização dos serviços e
a uma mercantilizaçâo que interfere agora nos serviços de produção de
informações, de comunicação , de formação e de educação.
- Do outro lado, uma boa parte do caracter irredutível dos bens de educação
estava ligado aos altos custos de troca (transactions costs) deles num
mercado : falta de reproductibilidade, caracter especifico, fungibilidade,
ausência de separabilidade de dados objectivos da enunciação subjectiva do
professor e da atenção também subjectiva do aluno. Mas a revolução digital
parece acabar com muitas características técnicas do monopólio educativo
como vamos examinar mais em baixo. Essa ameaça não é considerada uma
brincadeira porque ela se apresenta como uma democratização ( que ela seja
realmente uma democratização é outra historia evidentemente) além da
mercantilização de segmentos importantes do processo educativo, levando o
velho monopólio estatal de produção de bem publico à posição de verdadeiro
obstáculo à um acesso efectivo ao conhecimento e à cultura, na posição de
defesa das elites nacionais. Não é seu apresentar-se como mercado que é
perigosa ( sobre esse assunto a Estado ou a colectividade levam grande
vantagem para as populações pobres) mas a sua abertura a uma maior
democracia, a sua conjugação com a cultura hacker ( no sentido de Pekka
Himanen, 2001).
A falta do conceito de ³inteligência colectiva² foi danosa. Ela nos
permitiria uma nova legitimação das políticas publicas de equipamento, ou,
por usar da imagem da cyber navegação, de armamento da sociedade do
conhecimento.
Perguntamos então : não havia, no pensamento marxista, recursos para levar
em consideração a inteligência colectiva ? Na corrente oficial do marxismo a
inteligência colectiva foi colocada completamente do lado da luta de classe,
do poder de desmantelamento da produção capitalista ou do lado de um futuro
utópico socialista, do lado da imaginação. Assim não tinha mais lugar para
um papel produtivo da inteligência colectiva.
A intuição do Intelecto Geral de Marx
Encontramos uma intuição do aparecimento sempre mais decisivo desse caracter
distintivo da nossa modernidade, em Marx, mas um Marx desconhecido pela
tradição clássica do marxismo, o Marx do ³General Intellect² o Intelecto
geral dos Grundrisse. Num trecho muito famoso dos Grundrisse (Esboço da
critica da economia política de 1857) Marx fala de uma fase na qual o
comando do capitalismo sobre o trabalho dependente assalariado, não se
apresenta como dominação subjectiva do dono ou dos capitalistas ou do
Estado, mas como o reinado ou governo objectivo da ciência. No capitalismo
industrial a diferença da acumulação primitiva, a ³surda pressão² económica
podia esconder a violência da dominação extra económica². Após o
desenvolvimento do maquinismo, o conhecimento, a produção da ciência é
direitamente produção da sociedade em geral . E o Marx escreve: ³O tempo de
trabalho roubado aos operários parece miserável para medir o valor dos
bens². Essa evocação foi geralmente entendida como a definição madura do
comunismo. As pessoas farão critica de manhã, pesca à tarde, etc. Foi
considerado uma representação utópica do porvir, especialmente depois que o
socialismo real tinha insistido sobre a tarefa da industrialização. Somente
na corrente operaïsta italiana (Tronti, 1966, Negri 1971) e em André Gorz a
ideia de que o capitalismo teria já cumprido essa transição no seu interior.
Mas antes que revolução numérica se tornasse crível, o conceito de valor
trabalho para os bens mercantis e a globalidade da produção do conhecimento
aparecia como um grande engano, como uma mistificação do capitalismo.
Eu acho que desde de 1985, a intelectualidade difusa (que resultava da
escolarização maciça sobre a pressão operaria) já havia encontrado as NTIC.
Agora, podemos caracterizar a inteligência colectiva
Algumas teses sobre inteligência colectiva na era da revolução numérica.
A. A chamada revolução numérica está conjugada a uma incrível elevação do
nível de escolarização após a democratização das escolas médias e das
universidades. Esse movimento é geral : se encontra tanto nos pais mais
desenvolvidos quanto nos pais em desenvolvimento. Nos primeiros, existe uma
pressão quase institucional dos assalariados e dos operários para que os
seus filhos na ficaram na mesma posição social, nos segundos pais, foi um
impulso mais difuso dos migrantes internos ou internacionais. Esse desejo de
acesso ao conhecimento, se encontrou com as novas tecnologias da informação
e da comunicação. É a combinação desses dois movimentos que explique a
própria dinâmica da nova economia.
B. A chamada revolução das novas tecnologias da informação e da comunicação
permite ao mesmo tempo uma mercantilizaçâo mundial dos bens de conhecimento
que estavam antes bens públicos e também nacionais. A mercantilização
procura transformar esses bens em bens informações. Ela leva à uma crise sem
precedente tanto das modalidades de extração de valor quanto à uma
destituição das categorias mais usadas da economia política clássica .
C. A globalização assinala a passagem de um capitalismo industrial a une
terceiro capitalismo que chamamos, na nossa equipe de pesquisa, e na equipe
italiana do Professor Enzo Rullani, de ³capitalismo cognitivo².
D. O conhecimento não vai será confundido com a informação. O elemento
subjectivo de contextualizaçâo do conhecimento, ou de saber implícito volta
a ser determinante à medida que o elemento informativo é numerizado e
computadorizado. É por isso que a nova economia foi chamada economia da
atenção.
E. Essa mudança tem conseqüências enormes sobre o conteúdo da disciplina no
trabalho. As regras não podem ser impostas pôr em cima ; a captação da
atenção, a formação do consentimento voltam-se tão essenciais que eles são
agora parte direita do valor económico .
F. A produção volta a ser produção de conhecimento por meio de conhecimento
em lugar de produção de mercadoria por meio de mercadoria.
G. No conhecimento, os valores cardinais são a aprendizagem, a invenção
mais do que o conteúdo dado e a serialização de tipo industrial.
H. O tempo de produção e de trabalho no sentido do tempo agregado não é mais
um bom indicador do valor social e económico do bens de conhecimento .
I. Na produção cognitiva a separação entre a força de trabalho, como gasto
de energia muscular e o indivíduo, como cérebro e atenção torna-se menos
pertinente para delinear a actividade humana. Isso quer dizer que a
definição jurídica trabalho assalariado vai ser mais frágil.
J. Por uma valorização no mercado, enquanto eles são bens imateriais, os
bens de conhecimento, em sua parte mais essencial, apresentam as
dificuldades conjugadas do bens públicos e dos bens de informações dos bens.
Quer dizer, enquanto bem publico, um bem conhecimento não pode ser exclusivo
e não é divisível. Enquanto bem informação seu valor custa muito para
produzir mas o seu valor marginal é quase nulo e quanto mais ele é espalhado
mais valor ele vai ter. Por outro lado seu período de valor é geralmente à
muito curto prazo. Enquanto bem imaterial, a pesar de precisar de suporte
material, ele não se destroí no uso, ao contrario, ele ganha valor.
K. Nessa medida, os bens imateriais foram mercantilizados durante o
capitalismo industrial graça à atribuição artificial, quer dizer
estabelecido pela sociedade, de um monopólio temporário de uso e de fruição.
O cumprimento desses direitos de propriedade foi possível porque haviam
dificuldades técnicas a reproduzir os bens. A invenção e a generalização da
fotografia levou a uma primeira brecha no cercado dos direitos de
propriedade.
L. Pois tais características dos bens de conhecimento provocam problemas
enormes de mercantilização e de comprimento dos direitos clássicos de
propriedade como foram organizados no nascimento do capitalismo industrial.
Ainda mais que as novas tecnologias estão reduzindo a cada dia os
obstáculos a um des-clausuramento geral dos bens imateriais. Tudo o sistema
de direitos de propriedade intelectual ( a patente, a marca registrada e os
direitos de autor) que conseguia um monopólio transitório de exploração é
ameaçado pelas tecnologias de reprodução, de tamanho da memória numérica, de
capacidade de computação electrónica, de miniaturização, do transporte dos
dados, e finalmente da rede das redes que a Internet promove a baixo custo.
Hoje as faculdade quase infinita de reprodução numérica ameaçam o triplo
sistema das marcas registradas, das patentes e dos direitos de autor.
M. O papel eminente e hegemónico no direito burguês do abusus sobre o usus
(ou acesso) e o fructus, não funciona mais. As questões de
³enclosures²(cercado o clausura) voltam a ser a parte fundamental do cambio
e da mercadorizaçâo . Nas negociações da OMC, delinear os novos direitos da
propriedade intelectual será talvez a parte estratégica para o gap entre o
Sul e o Norte. O caso das drogas genéricas para curar o Sida é somente um
dos exemplos que teremos enfrentar nas próximos anos.
N. Voltando ao capitalismo cognitivo, precisa sublinhar mais uma
característica : A potencialidade produtiva da cooperação do cérebros fora
das limitas tradicionais (nacionais, lingüísticas, jurídicas) é de agora em
diante um modelo económico como é já visível no caso do freesoftware (o
modelo Linux contra o modelo Microsoft) .
O. Essa produtividade da cooperação para além da rede numérica não é um fato
isolado. Ela se generaliza na nova economia. Ela tem três aspectos
essenciais. Em primeiro lugar, ela mobiliza grande massa de população, muito
mais do que na época do capitalismo industrial. Em secundo lugar, ela cria
mais esternalidades positivas do que ela consume. Em terceiro lugar, ela
produzi rede nova ao meio de redes antigas ou redes espontâneas. Ela produzi
lasso social sem qual as transações económicas tornam-se impossíveis ou cada
vez mais custosas.
P. Para o mercado, essa produção da cooperação, se apresenta como uma fonte
maravilhosa de trabalho gratuito. Mas essa inteligência produtiva e
colectiva tem um custo. Ela é o próprio efeito da quantidade e da qualidade
dos investimentos públicos. Mas ela é também a fonte de uma riqueza mais
grande para a sociedade, a economia e o estado.
Em conclusão
Dizendo isso, eu não queria que seja interpretada mia palestra como uma
defesa incondicional das políticas publicas actuais. Ao contrário, achou
muito insuficiente o investimento na educação, na formação, no equipamento
humano e também institucional da sociedade numérica. Mas para os pais do
Norte, a colocação correcta do problema não é voltar ao bom modelo da
Terceira Republica contra a privatização dos bens educação. Nem para os
pais do Sul, procurar alcançar este mesmo ideal enganado do centros de
excelência alem do mercado, deixando ao sector publico um papel ³de seconde
zone ³de alfabetização e de reciclagem dos excluídos. O caminho que pode
ganhar, na mundializaçâo e na competição da divisão cognitiva, é promover,
alem de políticas publicas, uma apropriação maciça da novas tecnologia. Não
estou falando somente de equipamentos materiais (hardware), nem do software,
mas do wetware et do netware. O wetware, para o economista evolucíonista,
Nelson, é a actividade do cérebro, do sujeito vivente. O netware, a rede,
nâo é somente o network dos medias, é sobretudo a inteligência colectiva. O
mercado é capaz de construir networks, mais a capitalização das redes graça
ao Internet, a cooperação cientifica, a interacção cívica tornam-se os
novos espaços públicos, a verdadeira fronteira interna dos estados
democráticos.
O capitalismo cognitivo ainda não cumpriu o seu desdobramento num ³regime²
estável porque os direitos de propriedade, o equipamento institucional que
pode suscitar um movimento de profunda transformação (eliminação de renda
industrial e criação de outro tipo de renda por exemplo) não estão
disponíveis. Essas transformações devem ser inventadas. Por isso, como o
André Gorz diz no seu ultimo livro L¹immatériel, ³o capitalismo cognitivo é
a crise do capitalismo atual² . Algumas conseqüências sobre o problema da
redefinição do centro e da periferia merecerem atenção.
Falamos por acabar esta palestra de um dos mais significativo.
A divisão tradicional centro periferia no capitalismo industrial estava
ligada a uma divisão do trabalho delineada por Adam Smith e Ricardo. Hoje
aparece uma divisão cognitiva do trabalho e no mesmo tempo uma globalização
da actividade. Na hora do capitalismo cognitivo, seria um grande erro seguir
ainda as regras da especialização industrial dos velhos livros de economia
do capitalismo da época de Manchester . O anelo estratégico na nova divisão
global do trabalho, e a capacidade aos níveis nacional ou regional ou
internacionais de produzir modelos de cooperação entre os vários sectores da
inteligência colectiva. A língua, as culturas voltam-se a equipamento
directamente económico. Não é uma questão de excepção, é uma questão central
e vital para a nova economia ³tout court².
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